A intensidade e a rapidez das mudanças e descontinuidades
tecnológicas podem significar, para uma empresa que fique atrasada em relação a
seus competidores, um descuido fatal.
É crescente a importância que empresas de sucesso vêm
atribuindo a um conjunto de atividades ao qual genericamente denominam inteligência
competitiva.
Essas atividades referem-se basicamente à coleta e analise de informações
relevantes sobre competidores e mercados.
A prática da inteligência competitiva é essencial, desse
modo, em todas as decisões fundamentais para a empresa que digam respeito a
essas mudanças/descontinuidades, tais como lançar ou não um determinado
produto, adotar ou não novas tecnologias, entrar ou não em um mercado.
A descoberta de estratégias dos competidores, mesmo em
áreas soft como integração vertical,
qualidade do relacionamento com fornecedores e assim por diante, pode não
apenas indicar o melhor caminho a seguir, como permitir a preparação de planos
de contingência ou contra-ataques que venham a neutralizar sua ação.
Muitas são as razões que justificam a prática da
inteligência competitiva, mesmo tendo em vista os custos que ela acarreta.
Certamente entre elas encontram-se os custos de não praticar inteligência
competitiva, que sem dúvida alguma superam significativamente os investimentos
necessários para mantê-la.
Estruturando a Inteligência
Um dilema freqüente às empresas que desejam praticar a inteligência
competitiva refere-se a como estruturar-se para exercê-la com eficiência.
Uma opção é a formação de staffs centralizados, equipes de
profissionais dedicados full time à coleta e análise
de informações competitivas.
A segunda opção é a postura de fazer com que todos os
executivos sejam envolvidos no processo.
Na verdade, as empresas mais bem sucedidas em termos de
inteligência competitiva empregam ambas as formas, de maneira complementar.
Elas mantêm pequenas equipes centralizadas de inteligência competitiva,
compostas por apenas 2 ou 3 pessoas, que atendem diretamente às necessidades de
informações do executivo principal e da cúpula na tomada de decisões
estratégicas.
Paralelamente, essa pequena equipe centralizada é
responsável por auxiliar os executivos de linha, que devem ser orientados para estarem
sensíveis às informações estratégicas relevantes à empresa, buscarem-nas sistematicamente
e transmitirem-nas adequadamente a toda a estrutura.
Foco na Busca de Informações
Às vezes a prática de inteligência competitiva acaba por
não apresentar os resultados esperados. Uma das principais causas desse
aparente insucesso reside na falta de foco/orientação das pesquisas.
Fornecedores, clientes, os próprios competidores, seus fornecedores e clientes,
relatórios anuais, declarações à imprensa, órgãos e entidades governamentais,
muitas são, enfim, as possíveis fontes de informação.
Quando é colocado à inteligência competitiva um problema
específico, do tipo “quais novos produtos estão sendo preparados pelos
concorrentes?”, o trabalho de pesquisa torna-se mais focado e produtivo,
permitindo identificar-se mais rapidamente as fontes de informações relevantes
e obter a informação desejada.
Isso não significa que as atividades de inteligência
competitiva devam orientar-se apenas por questões fechadas ou necessidades de
informações específicas.
Um trabalho sistemático e contínuo de “pesquisa aberta”
também deve ser empreendido, de modo a monitorar ameaças e oportunidades em
áreas periféricas.
Contudo, os objetivos prioritários devem ser claramente
explicitados de modo a permitir a separação do essencial em relação ao
desejável.
Pesquisando Produtos
Concorrentes
Uma boa prática de inteligência competitiva são os
chamados benchmarks. Muito populares
entre as empresas de grande porte, os benchmarks consistem na
aquisição e análise minuciosa de todos os produtos concorrentes.
Os produtos são comprados, utilizados em condições
diversas, desmontados e analisados componente a componente, tendo em vista
identificar seus pontos fortes e fracos e sugerir aprimoramentos que fortaleçam
a posição competitiva da empresa nessa área.
Mais conhecido e praticado nos setores de bens industriais
e de consumo, o benchmark vem estendendo-se
cada vez mais ao setor de serviços, colhendo resultados impressionantes. É o
caso de uma cadeia de hotéis norte-americana, que durante 6 meses manteve
equipes hospedando-se nos mais variados hotéis concorrentes em todas as regiões
norte-americanas. Essa verificação in loco das
peculiaridades de cada competidor, contando inclusive com entrevistas dos
próprios gerentes dos hotéis, permitiu a identificação de pontos fortes e
fracos organizacionais e culturais de cada um dos concorrentes. A equipe de pesquisas identificava-se como
pertencente à empresa concorrente, e ainda assim os gerentes dos hotéis, em sua
maioria, prontificavam-se a responder às questões.
Após
essas pesquisas a cadeia lançou hotéis que rapidamente atingiram resultados
excepcionais. A prática do benchmark no setor de serviços deve, dessa
forma, concentrar-se na decomposição e análise detalhada de todas as dimensões de
marketing, atendimento, tecnologia, recursos humanos, management etc. dos
competidores, visando a classificá-los em um determinado serviço/mercado.
Contra-Inteligência Competitiva
A
intensificação do uso de atividades de inteligência competitiva, contando às vezes
até com o uso de métodos menos “nobres” tais como espionagem, subornos, “pirataria”
de executivos etc., faz crescer a importância de armas de “contra inteligência”,
que permitam à empresa preservar os “segredos” de seus negócios.
Nesse
sentido é fundamental que se desenvolvam entre os executivos e colaboradores da
organização atitudes como discrição, cautela e sigilo. Todos os colaboradores da
empresa devem ser treinados/educados para perceber a seriedade e a importância
das informações que são de seu domínio e que se constituem em patrimônio da
empresa.
Os
colaboradores devem estar alertas quanto a métodos que podem ser usados pelos
competidores para tentar obter essas informações tais como propostas de
emprego, pesquisas de organizações supostamente “neutras” e tantos outros.
Devem também estar preparados para reagir ética e inteligentemente a esses
ataques. Ao mesmo tempo devem ser devidamente conscientizados quanto ao alto
risco representado pelo emprego de manobras não-éticas para obtenção de
informações.
É
conhecido o caso de um alto executivo inglês, do setor eletrônico, que aceitou
uma proposta de emprego de uma empresa concorrente, interessada em conhecer os
planos de sua empresa. Após um mês em seu novo cargo ele retornou à sua antiga
empresa, levando todos planos e informações da concorrente.
Conhecendo o Perfil dos
Concorrentes
É
comum que empresas tenham apenas informações do tipo “ouvi dizer” sobre seus
concorrentes. Informações desse tipo são em geral enganosas, e com certeza não
contribuem para a elaboração consciente e precisa de estratégias competitivas de
sucesso. Uma ferramenta útil para evitar essa deficiência é a preparação
sistemática e periódica de perfis dos principais concorrentes da empresa, que
visem a descrever e identificar o “caráter empresarial” de cada um deles. O
conteúdo do perfil deve variar de setor para setor, mas em geral deve conter
informações básicas como: capacitação e experiência – técnicas e gerenciais –
dos executivos chave, áreas de negócio em que o grupo atua, critérios aparentes
para entrada ou não num novo negócio ou produto, principais valores e filosofia
da empresa, além de uma avaliação quanto ao posicionamento relativo de cada
concorrente dentro de variadas dimensões – força empreendedora, qualidade dos
produtos, produtividade, qualidade dos colaboradores, predisposição a assumir
riscos etc. O conhecimento de tais características dos concorrentes e sua discussão
freqüente à mesa de diretoria permite a tomada de decisões críticas a respeito
das estratégias da empresa num contexto realista em termos de concorrência de
mercado.
Informações Certas Para Pessoas
Certas
Um ponto crítico para a eficácia das atividades de
inteligência competitiva é fazer com que as informações necessárias e
estrategicamente mais relevantes cheguem às pessoas que delas podem tirar
melhor proveito, tornando suas decisões mais eficazes. É igualmente importante
que as informações sejam bem trabalhadas a fim de evitar uma sobrecarga sobre
os executivos, em geral já às voltas com altos volumes de informações
redundantes ou pouco relevantes. É fundamental que as pessoas que se ocupem full time de atividades de inteligência competitiva conheçam profundamente
a empresa e seus centros de tomada de decisão podendo, desse modo, identificar
para que partes da organização determinada informação pode ser mais útil.
Paralelamente, no treinamento de todos os colaboradores para que atuem como
agentes de inteligência deve-se reforçar a importância de que todos tenham uma
visão global da empresa bastante apurada, que lhes permita identificar e
remeter informações estratégicas a outras áreas, ainda que essas não sejam
importantes para suas próprias áreas.
Qualidade das Pessoas
Como em tantos outros aspectos
da vida das organizações, também nas atividades de inteligência competitiva as
pessoas são o elemento mais importante. A qualidade das pessoas, tanto dos
membros do staff centralizado como de todos os colaboradores da organização são
condições básicas para o sucesso do sistema. Deve-se destacar, nesse ponto, o
papel crítico representado pelos executivos de alta administração.
Como elementos da empresa mais
próximos ao ambiente externo, os executivos de cúpula encontram-se em posição
privilegiada para obter informações competitivas de alto valor estratégico.
Nesse sentido, a alta administração deve ser aproveitada como uma poderosa
fonte de informações competitivas, devendo seus executivos “sintonizarem seus
sensores” quanto a aspectos de inteligência competitiva antes de suas visitas a
clientes, fornecedores, concorrentes etc. e registrarem/disseminarem as
informações e conhecimentos relevantes após os contatos.
Empatia Com A Concorrência
Se a empresa está sintonizada
com o mercado, provavelmente seu pessoal faz empatia com os clientes (coloca-se
no lugar deles), buscando máxima sintonia ao criar produtos/serviços, idealizar
planos de marketing/comunicação etc. Empatizar com os clientes, porém, não é suficiente.
No ambiente atual é fundamental também fazer empatia com os concorrentes ao
desenhar as estratégias da empresa, até para detectar oportunidades de alianças
estratégicas. Algumas questões-chave nesse sentido: o que faríamos, se fôssemos
um concorrente extremamente sofisticado e agressivo, para competir no mercado e
atacar especificamente a empresa (a nossa)? O que faríamos em novos
produtos/inovação? E em processos? Em termos de pricing? E quanto às
estratégias de marketing? Como estaríamos tentando abordar os clientes dos
concorrentes e do concorrente-foco em questão (nossa empresa)? Uma análise
desse tipo, inclusive com ajuda externa se necessário (para evitar problemas de
miopia por conflito de interesses), poderá gerar insights riquíssimos
para o processo de formulação de estratégias para a empresa.
De Onde Virão Os Concorrentes
Do Futuro?
Acompanhar mudanças em
andamento e estudar tendências pode parecer para muitos executivos
“pragmáticos” meros exercícios de “futurologia”, pouco relacionados com o
dia-a-dia da empresa. A história, porém, revela que muitas empresas foram
expelidas do mercado exatamente por ignorar essas tendências. Quando as mudanças
realmente acontecem, provavelmente é tarde demais para ter sucesso na reação.
Quanto mais antecipadamente são detectadas as grandes tendências de mudanças,
melhores são as condições de se assegurar um amanhã saudável e sem problemas. Quanto
do sucesso de empresas que são líderes de mercado há décadas se deve a esse
cuidadoso monitoramento das tendências de mudança? Apropósito, de onde virão seus
futuros concorrentes? Onde estão as “pistas” que darão essa resposta? Poderão
vir de áreas completamente diversas (caso dos serviços de correio, contrapostos
à expansão da internet ; dos bancos, que enfrentam concorrência das lojas de
varejo no financiamento a pessoas físicas)?
Inteligência Competitiva Sem
Esquecer O Básico Em Estratégia
A expressão “estratégia
competitiva” tem sido freqüentemente utilizada nas empresas do mundo inteiro,
principalmente para fazer referência a uma atuação que consiga fazer a
organização sobreviver e ter sucesso em um mercado disputado por uma
concorrência cada vez mais intensa.
Na busca de estratégias para
competir mais eficazmente, muitas empresas acabam entrando numa espécie de
“duelo predatório” no qual todos parecem perder – tanto os concorrentes
envolvidos, como os próprios clientes (por exemplo, na medida em que a busca
por menores custos leva as empresas a se distanciarem cada vez mais dos
clientes). Essa problemática é muito bem analisada por artigo do consultor
japonês Kenichi Ohmae, publicado na Harvard Business Review de
Novembro/Dezembro, 1988. De acordo com o autor, é preciso que os executivos
voltem ao conceito básico de estratégia – o de servir às necessidades reais dos
clientes – evitando perder-se numa busca obsessiva de “vitórias sobre os
concorrentes/derrotas dos oponentes”.
Aparentemente os executivos em
geral sentem-se mais à vontade entrando em batalhas competitivas tradicionais
do que enxergando estratégias orientadas ao cliente que eficazmente possam,
inclusive, evitar choques com a concorrência.
Estratégias autênticas sempre
têm em primeiro plano as necessidades dos clientes e a própria concepção do
produto. Nesse sentido, o centro da estratégia está na constante e persistente
busca de oportunidades de adicionar valor aos produtos, visando a excelência de
qualidade sob a perspectiva do cliente, em sintonia com suas necessidades mais
sutis.
É por meio desse atendimento
refinado das necessidades dos clientes (que não são normalmente detectadas por
pesquisas superficiais tradicionais, mas somente por meio de um contato
profundo com os clientes), que a empresa adquire força no mercado, recebendo a
preferência dos clientes sobre os concorrentes.
Em resumo, a competitividade é
conseqüência do acerto das estratégias básicas voltadas ao cliente, e não do
objetivo em si.
Como poderemos estar mais
próximos de nossos clientes, para efetivamente conhecermos suas necessidades e problemas?
Fazendo os melhores talentos da empresa – inclusive o próprio executivo chefe –
conduzirem mesas redondas profundas com grupos focais de clientes, visitarem clientes
específicos sistematicamente etc., e depois trabalharem as informações de forma
igualmente profunda dentro da empresa buscando oportunidades de “adição de
valor” para os clientes?