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                                                                          Paulo Corrêa  

1 -
“Oficialize” as premissas e os pressupostos da organização ou então realize seminários internos preparatórios para defini-los consensualmente. Esses valores são a base do trabalho e devem ser usados por todos.   Muitas vezes acaba se gastando a maior parte do tempo de reuniões de planejamento na discussão de cenários econômicos, com todos buscando provar porque a alternativa que escolheram para suas projeções é a “melhor” ou a “correta”. Dificilmente chegando a um consenso, essa discussão prova-se de pouca utilidade prática e desperdiçadora do tempo de que se dispõe (em geral escasso) para a discussão de tópicos ligados à concretização dos objetivos da empresa.        

 2 – “Convencione” que é sempre necessário discutir planos de longo prazo, ainda que o executivo tenha recentemente assumido uma área. Nesses casos, o executivo deve trabalhar sobre os planos de longo prazo deixados por seu antecessor e discutir até que ponto eles permanecem válidos. Para tal é importante fornecer subsídios do tipo megatendências, discutidos em seminários preparatórios.   Os executivos limitam seu horizonte de planejamento a, no máximo, um ano, sem traçar considerações sobre o longo prazo (5 ou 10 anos), ou apenas limitando-se a “chutar” metas quantitativas para esse período. Esse bloqueio é justificado por racionalizações do tipo “é impossível prever no Brasil”, “ninguém tem bola de cristal” etc. Contudo, suas raízes são mais profundas, estando ligadas ao executivo que só planeja para o horizonte de sua permanência no cargo, ou então ao executivo que não está preparado para pensar a longo prazo e formular perguntas básicas referentes ao futuro (“minha área estará nesse mesmo negócio nos próximos dez anos?, quais principais inovações serão introduzidas?, que oportunidades e riscos surgirão?” etc.).  

3 – “Limite” a discussão de números a algumas dimensões básicas
(do tipo lucro total, receita total, índices etc.) convencionadas pelos participantes do processo, buscando fazer com que previsões numéricas sejam fundamentadas pelas ações a serem empreendidas, limitações/características da empresa e do setor etc.   A apresentação de uma elevada quantidade de cifras consome o tempo que deveria ser destinado à discussão profunda de estratégias e programas de ação para que se atinjam os resultados desejados. Desse modo, o planejamento acaba não passando de um exercício de prognósticos cegos sobre o futuro, ou então de uma projeção linear do passado.  

4 – “Mantenha” um trabalho paralelo para discussão e ajuste de critérios contábeis
, buscar uma estrutura descentralizada com unidades mais independentes, limitar a um mínimo (por exemplo, 10% do tempo total) o tempo destinado a discutir o passado, anteceder reuniões de planejamento por reuniões de avaliação de performance.   O passado é conhecido, o futuro incerto, por isso é mais fácil analisar o desempenho passado do que tentar estabelecer caminhos e compromissos para o futuro. As reuniões de planejamento acabam transformando-se em reuniões de avaliação de desempenho ou, pior ainda, em reuniões para justificar desempenhos considerados abaixo do desejável. Nessa postura, é possível que se caia em discussões quanto à justiça de critérios contábeis de alocação de receitas/custos, distorcendo os objetivos da reunião. Também contribui para essa armadilha a tendência a projetar o futuro utilizando o raciocínio incremental (somar algo ao que aconteceu no passado), em geral falacioso, pois o futuro pode ser bastante diferente do passado devido a inovações tecnológicas, mudanças de características dos consumidores, alterações no ambiente etc.  

5 – “Estimule” os executivos a trabalhar o planejamento durante o ano todo
, praticando-se, por exemplo, reuniões intermediárias de planejamento. Também pode ser montado um programa para planejamento em que ao longo do ano as diversas análises e estudos venham se realizando, incluindo reuniões periódicas (por exemplo, trimestrais) para análise comparativa previsto/realizado e redirecionamento do planejamento, acompanhadas de sessões de fundamentação conceitual e disseminação de ferramentas gerenciais.   É sintoma de um círculo vicioso que permeia os processos de planejamento ineficientes – a falta de preparo conduz a um planejamento pobre que, mostrando se de pouca utilidade, não estimula esforços para preparar-se bem no ano seguinte. Se for desejado um processo de planejamento eficaz, em algum momento esse círculo tem que ser quebrado. Os executivos devem passar a preparar-se contínua e sistematicamente ao longo de todo o ano (preparar-se apenas uma semana antes das reuniões está muito longe de ser suficiente), alocando tempo à análise profunda do ambiente em que operam, clientes, concorrentes, pontos fortes e fracos etc. As reuniões formais de planejamento são apenas a consolidação, comunicação e comprometimento frente à empresa do que estudou-se minuciosamente ao longo do ano.  

6 – “Trabalhe” ao longo do ano todo o preparo conceitual dos executivos
por meio de treinamentos, cursos, coaching, leituras dirigidas, debates periódicos sobre temas conceituais. Também é importante ter em mente a necessidade desse background conceitual nas decisões quanto à promoção, seleção de novos executivos, especialmente para cargos de alta administração.   As reuniões e o processo de planejamento podem esvaziar-se por deficiências conceituais dos envolvidos. Eles não dominam uma linguagem que deve ser comum a todos (conceitos como: missão, visão, objetivos, estratégias, metas, itens financeiros e índices etc.). A própria fraqueza conceitual leva a uma desvalorização do processo de planejamento, pois não é compreendida sua importância dentro do processo de gestão da organização. Desigualdades em termos de bagagem conceitual entre os executivos também podem levar a barreiras do tipo executivos inseguros para apresentar planos, ou então executivos mais preparados desinteressados por ter que discutir questões básicas conceituais que deveriam ser do domínio de todos.  

7 – “Insista” na apresentação de ações e meios que serão utilizados para atingir os resultados fixados. Pode-se até prefixar o formato das apresentações incluindo itens obrigatórios como: recursos disponíveis e necessários, planos de ação, tarefas, cronogramas, pontos de verificação intermediária de resultados e alternativas de ação no caso de desvios.   A compulsão por objetivos dá ênfase excessiva em resultados a atingir, sem a necessária sustentação de ações necessárias para chegar lá. Dentro dessa postura, os fins passam a ocupar um espaço exagerado em relação aos meios, e o planejamento acaba por mostrar-se sem conteúdo e sustentação. Essa armadilha também pode ser resultado de uma tendência a ir pelo mais fácil, no caso, a fixação arbitrária de um conjunto de números que devem ser atingidos ao final de um período. O exercício mais difícil, mas certamente mais importante em termos de planejamento, é estabelecer como serão atingidos esses resultados. Desse como é que podem depender a coordenação de ações, a prática do teamwork, a coesão da organização como um todo.  

8 – “Trabalhe o clima” para debates/discussões o ano todo
, visando a construir um ambiente aberto, positivo e construtivo. Podem ser praticadas reuniões para “lavar a roupa suja” por um mediador neutro, ou então seminários de team-building ao longo do ano. Nesse processo o objetivo é fazer com que todos baixem suas defesas.   As reuniões e apresentações de planejamento devem constituir-se em um fórum de debates onde idéias sejam postas em choque ou validadas a partir da participação de todos os executivos. Por isso, deve prevalecer um clima de abertura e positividade, o que nem sempre ocorre. Às vezes o clima predominante é de “diplomacia”, em que os executivos evitam questionar um companheiro para não “prejudicá-lo” (ou não levar um “troco” mais adiante). Outras vezes a exposição de um executivo é “crivada” por outros com finalidades políticas – ameaçá-lo, reduzir seu poder etc. Todas essas “agendas ocultas” acabam por retirar a objetividade dos debates, transformando-os em instrumentos de poder que nem sempre trazem os melhores resultados para a empresa.  

9 – “Conscientize” a cúpula
de que uma condução intencional e política do processo de planejamento é facilmente percebida pelos executivos, causando uma drástica perda de credibilidade, difícil de ser recuperada ao longo do tempo. Decisões estratégicas tomadas unilateralmente pela cúpula devem ser comunicadas diretamente, sem o uso de subterfúgios. Não se pode deixar de atentar à tendência de uma crescente demanda por participação por parte dos executivos, que deve ser acompanhada por uma redução do número de decisões da alta administração sem ao menos ouvir os mais diretamente afetados.   A alta administração não deve utilizar o processo de planejamento como um subterfúgio para expor e justificar decisões tomadas de antemão (por exemplo, desativação de áreas, trocas de executivos, promoções, entrada em novos negócios ou mercados etc.). Agindo assim, a cúpula manipula o processo, tornando-o pouco eficiente e autêntico. Essa falta de autenticidade é percebida pelos executivos, que se desinteressam pelo processo em si, que perde sua credibilidade e encaminha-se para outras armadilhas. Além disso, corre-se o risco de se cristalizarem posições antagônicas entre os executivos de alta administração e os demais executivos, instaurando um clima de desconfiança e confronto.  

10 – “Crie e mantenha” um sistema
que faça com que haja continuidade e acompanhamento das decisões e ações definidas durante o processo de planejamento. Esse sistema pode incorporar práticas como: reuniões periódicas de avaliação, acompanhamento e reorientação, definição de projetos e responsáveis, condução de grupos de trabalho com datas determinadas para implantação de mudanças e assim por diante.  

O processo anual de planejamento representa um dos ciclos temporais básicos, de média duração, na gestão do negócio, constituindo-se em um importante elo entre o curto e o longo prazos. Todavia, é freqüente que se caia na armadilha de não dar continuidade/não sistematizar o próprio processo. Desse modo, aquilo que é decidido nas reuniões de planejamento não é levado adiante e nem ao menos considerado nas reuniões de planejamento seguintes (que às vezes nem ocorrem). Essa falta de continuidade e “amarração” é causadora de um substancial desgaste do processo, tornando impossível que ele assuma a posição de destaque que lhe é devida dentro do processo de gestão da empresa.  

Finalmente, faça com que os sistemas de reconhecimento, recompensas, carreira etc., incorporem, como critério para decisão, o uso efetivo de ferramentas de planejamento. Esse reforço se constituirá num forte indutor para que os executivos venham a adotar as posturas desejadas.